Boletim Neuro Atual- Resenhas de Trabalhos Científicos em Neurologia
Volume 2, Número 2, 2010
“Influence of sleep disturbance on quality of life of patients with epilepsy.” Piperidou C, Karlovasitou A, Triantafyllou A, Terzoud A, Constantinidis T, Vadikolias K, Heliopoulos I, Vassilopoulos D, Balogiannis S. Seizure 2008;17(7):588-94.
O objetivo deste trabalho foi detectar em pacientes epilépticos a prevalência da sonolência excessiva diurna (SED), da síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS) e da insônia, e seu impacto na qualidade de vida (QV).
Esse estudo transversal captou 124 pacientes ambulatoriais em um período de 10 meses, em três hospitais universitários gregos. Os pacientes eram maiores de 18 anos (sem déficit cognitivo, distúrbios psiquiátricos ou outras doenças neurológicas), sem crises epilépticas há 6 meses e em uso de drogas antiepilépticas (DAE). Foram mensuradas: SED pela Epworth Sleepiness Scale, SAOS pela Sleep Apnea Scale of the Sleep Disorders Questionnaire e insônia pela Athens Insomnia Scale. A qualidade de vida foi avaliada pelo Quality of Life in Epilepsy Inventory (QOLIE-31).
A SED foi encontrada em 16,9% dos pacientes (21/124), sendo sua frequência maior do que na população em geral (11,6%), porém a diferença entre esses grupos não foi significantemente maior. A SAOS ocorreu em 28,5% dos pacientes (35/124), sendo maior nos homens mais idosos (p < 0.001). A frequência da insônia foi de 24,6 % dos pacientes (30/124), sendo menor do que na população em geral (30%). Esses dados foram contraditórios aos demais estudos consultados. Os autores sugerem que isso possa ter ocorrido pelo uso de barbitúricos e benzodiazepínicos pelo sujeitos. Na análise multivariada, entre as variáveis dependentes (SED, SAOS e insônia) e subescalas da QOLIE-31, a insônia foi reconhecia como uma fator negativo independente para escore total ( p < 0,001), escore total de qualidade de vida (p=0,002 ), bem estar emocional (p < 0,001), energia/fadiga (p < 0,001), funcionamento cognitivo (p=0.004) e funcionamento social (p=0,003). No entanto, a SAOS foi considerada fator negativo apenas para o funcionamento cognitivo (p=0,001).
Em resumo, neste estudo a SED, a SAOS, mas não a insônia são mais freqüentes nos pacientes com epilepsia do que na população em geral. No entanto, apenas a insônia foi considerada fator negativo para a QL em todos os domínios avaliados pelo QOLIE-31. Os autores consideram que os seus resultados adicionaram mais dados sobre a freqüência e tipo de transtorno de sono, em pacientes com epilepsia, e o seu impacto na QL. No entanto, há necessidade de aplicação de metodologia mais robusta, como o uso de desenhos longitudinais e técnicas objetivas (polissonografia e testes de latência múltiplas do sono) para uma conclusão mais apurada. Finalmente, os autores também assinalam que o reconhecimento clínico e o tratamento dos transtornos do sono são importantes para melhorar a QV de vida dos pacientes com epilepsia.
Gisele Schenkel Leite Moura Neves
Marleide da Mota Gomes
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Academia Brasileira de Neurologia-São Paulo, Brasil