Boletim Neuro Atual- Resenhas de Trabalhos Científicos em Neurologia.
Volume 2, Número 2, 2010
“Épidémiologie de la borréliose et de la neuroborréliose de Lyme en France”. Blanc F. Revue Neurologique 165 (2009): 694-701
A borreliose de Lyme (BL) é uma doença sistêmica, cujo comprometimento neurológico nem sempre é de fácil reconhecimento por seu polimorfismo clínico. A meningorradiculite aguda é a forma mais comum, ocorrendo entre 67 a 85% dos casos. O carrapato vetor é encontrado na quase totalidade do território metropolitano francês, onde a incidência da BL é estimada em 9,4:100.000, e a neuroborreliose (NB) em 0,6:100.000. Algumas regiões da França, como a Alsácia, apresentam incidência bem mais elevada, estimada em 200:100.000 e 10:100.000, respectivamente para BL e NB. Pode-se dizer então que a França é um país de risco moderado para a BL, embora em algumas áreas o risco seja alto, comparável à Alemanha e Suíça. Nos últimos 15 anos a incidência de BL tem aumentado na Europa e EUA. Além dos quadros dermatológicos, reumatológicos e neurológicos característicos, sintomas como fadiga, febrícula, perda de peso e síndrome pseudogripal tem sido descritos. A cada ano, pelo menos 6000 pessoas apresentam BL naquele país, e, entre estas, aproximadamente 360 desenvolverão NB. Os autores descrevem as características locais dos principais vetores, da borrelia (na Europa, a maioria dos casos de NB são conseqüência das espécies B. garinii e B. afzelii) e seus hospedeiros; lembram ainda da possibilidade de alguns pássaros marinhos permitirem a passagem de espiroqueta de um continente para outro. De acordo com estudos recentes (Réseau Sentinelles), a idade média de comprometimento é 56,5 anos, com igual ocorrência entre os gêneros masculino e feminino, e com comprometimento bastante similar entre populações rurais e de grandes cidades. O número de casos da doença nos EUA aumentou na década de 90, e tem se mantido em torno de 20.000 casos/ano desde 2002. Os dados europeus não são tão bem conhecidos, mas na República Checa os dados mais recentes apontam uma incidência de 42,6:100.000 em 2006. Esse aumento de casos na Europa nestas últimas duas décadas pode estar relacionado à menor severidade dos últimos invernos na região, tornando o meio ambiente mais favorável à propagação da doença. O artigo se encerra apontando algumas estratégias de prevenção desta doença, sugerindo o exame da medida da síntese intratecal anti-Borrelia no LCR como meio diagnóstico mais efetivo.
Comentário:
Ao contrário de que muitos imaginam, a borreliose de Lyme não é uma doença de ocorrência restrita aos EUA, sendo inclusive mais comum em vários países da Europa do que lá. Nos últimos 20 anos, esta doença tem sido estudada em nosso meio, especialmente através do trabalho incansável de Natalino Yoshinari e seu grupo, no Estado de São Paulo. Hoje esta doença é conhecida como Síndrome Baggio-Yoshinari (SBY), como reconhecimento aos esforços deste grupo. Assim como existem diferenças entre a BL americana e a européia, a BL brasileira (SBY) apresenta também algumas particularidades. Os espiroquetas parecem conservar permanentemente a forma atípica, o que confere algumas características biológicas e clínicas absolutamente próprias em nosso país. Desta forma, parece adequada a denominação de SBY, desvinculada da Doença de Lyme clássica, já que se trata de condição clínica distinta, cujo real dimensionamento de sua importância justifica a ampliação destes estudos.
Ronaldo Abraham
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Academia Brasileira de Neurologia-São Paulo, Brasil