Boletim Neuro Atual, Vol. 2, No 2 (2010)

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Boletim Neuro Atual- Resenhas de Trabalhos Científicos em Neurologia.

Volume 2, Número 1, 2010



Attention-deficit disorders and epilepsy in childhood: incidence, causative relations and treatment possibilities.” Kaufmann R, Goldberg-Stern H, Shuper A. J Child Neurol. 2009; 24(6):727-33.

O artigo apresenta uma ampla revisão das diversas relações entre a epilepsia e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), passando pelas questões da prevalência e potenciais explicações desta comorbidade, bem como discutindo pontos de interesse para o adequado manejo do déficit de atenção em pacientes com epilepsia. Os autores fazem uma extensa revisão bibliográfica, não sistemática, incluindo os mais recentes estudos publicados.

O TDAH pode ocorrer em 20% das crianças com epilepsia, em comparação a 5-7% da população geral. Vários fatores podem contribuir para essa maior prevalência, tais como uma potencial propensão genética comum entre os dois transtornos, desregulação do sistema noradrenérgico, descargas epilépticas sub-clínicas, crises epilépticas (CE) freqüentes, toxicidade das drogas antiepilépticas (DAE), politerapia e fatores psicossociais.

Os autores levantam por fim a questão de ser o tratamento com metilfenidato (medicamento de escolha para o TDAH) benéfico para os problemas atencionais e comportamentais das crianças com epilepsia e TDAH, em contraposição ao risco potencial de aumento das crises.

Os estudos que subsidiam estas respostas apresentam limitações metodológicas, sendo a principal a amostragem, habitualmente pequena e heterogênea, bem como o desenho do estudo, quase todos retrospectivos ou ensaios abertos (os dois únicos ensaios randomizados / duplo-cego têm amostras mínimas considerando a prevalência de ambas as condições clínicas). Outras drogas disponíveis para o tratamento do TDAH, tais como a atomexitina e o modafinil precisam ser estudadas, embora sua farmacologia não sugira potencial efeito epileptogênico.

Não há evidências de interação adversa entre o metilfenidato e as DAE. Portanto, não há contra indicações até o presente em utilizar estimulantes em crianças com epilepsia com CE ativas e portadoras de TDAH comórbidos, porém requer-se cuidadosa observação antes de ser prescrito o metilfenidato e o monitoramento de sua clínica e do status do EEG durante a terapia medicamentosa. Achados eletroencefalográficos anormais em crianças com TDAH e sem epilepsia não contraindicam o uso de metilfenidato e este exame não deve ser solicitado de rotina nestes casos.

Os autores concluem que o tratamento inicial de sintomas de desatenção em crianças e adolescentes com epilepsia deve ser o de tentar um melhor controle das crises epilépticas, diminuir a politerapia, usar doses menores possíveis de DAE e substituir aquelas com sabido efeito adverso colateral cognitivo mais importante. Uma vez que se decida pelo uso de estimulantes de atenção, este pode ser feito com segurança em caso de CE bem controladas.

Reconhecendo as limitações dos estudos passados, futuros estudos devem ter grandes amostras e pacientes com maior freqüência de CE para garantia de conclusões mais consistentes.



Célia Regina Carvalho Machado da Costa

Heber de Souza Maia Filho

Marleide da Mota Gomes





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