Boletim Neuro Atual- Resenhas de Trabalhos Científicos em
Neurologia.
Volume 2, Número 2, 2010
Consensus on the use
of neurophysiological tests in the
intensive care unit (ICU): Electroencephalogram (EEG), evoked potentials (EP),
and electroneuromyography (ENMG). Guérit JM et al. Neurophysiologie
Clinique (2009) 39, 71-83 April 2009.
Este consenso sobre
o uso de testes neurofisiológicos em unidade de terapia intensiva
(UTI): Eletroencefalograma (EEG), potenciais evocados (PE) e eletroneuromiografia (ENMG) foi
promovido por autoridades européias e se
debruçou, particularmente, sobre a maneira de fazer esses testes clinicamente
úteis para o manejo de pacientes individuais. Este estudo reuniu vários
neurofisiologistas clínicos e neurointensivistas europeus. Foi baseado tanto numa revisão da literatura quanto na própria
experiência de cada participante. Dada a
impossibilidade de reunir estudos metodológicos que cumpram os critérios da medicina baseada em evidências,
este artigo baseia-se essencialmente em pareceres de peritos.
O que o grupo considerou como
os melhores sistemas de classificação para as anomalias de EEG e PE na UTI é apresentado pela primeira vez. Os testes neurofisiológicos
são úteis para o diagnóstico (epilepsia, morte encefálica e doenças
neuromusculares), prognóstico
(encefalopatia anóxica isquêmico, traumatismo craniano e distúrbios neurológicos de
origem metabólica e tóxicos), e acompanhamento
na UTI de adultos, UTI pediátrica e UTI neonatal. O significado prognóstico de
qualquer teste pode variar em função da etiologia do coma, por
exemplo. A avaliação neurofisiológica fornece exames quantitativos de avaliação
funcional do sistema nervoso. Pode ser utilizada em pacientes sedados ou curarizados. Portanto, deve desempenhar um
papel importante na avaliação de pacientes internados em UTI.
O eletroencefalograma (EEG) e os
potenciais evocados (PE) podem mostrar uma disfunção generalizada ou focal. Disfunção
Generalizada normalmente é o parâmetro relevante para a determinação de prognóstico,
embora a detecção de disfunção focal possa ser de extrema
importância para o prognóstico funcional ou a identificação
de complicações iminentes em determinadas situações,
O EEG tem sido usado por
um longo tempo para avaliar a profundidade do coma. O PE é de grande
importância na UTI e sua análise pode, inclusive, identificar
uma disfunção sensorial periférica. A análise do tronco cerebral também é
possível com PE.
A
ENMG consiste nos
estudos de condução nervosa (Sensitiva e Motora) e eletromiografia (EMG) de
agulha . Os estudos de condução nervosa
podem ser feitos como no Laboratório de EMG. A dificuldade
com EMG de agulha é que pode não ser possível a obtenção de contração voluntária de
confiança porque o paciente tem uma possibilidade limitada, se tiver, para
cooperar. Por estas razões, a principal contribuição da EMG de agulha na
UTI
é a demonstração
da atividade desnervatória espontânea, que, no entanto, aparece
apenas 10 a 14 dias após uma lesão. Na avaliação motora e de
condução sensitiva do nervo os estudos podem revelar a diminuição de amplitude ou bloqueios de condução antes do
aparecimento da atividade espontânea de desnervação. Em pacientes
com vários dias de ventilação mecânica, uma
complicação frequente é a doença crítica miopática ou polineuropatia.
Estimulação
tanto de músculos quanto de nervos
periféricos pode ser útil no diagnóstico de patologia
neuromuscular.
Estas
são ferramentas complexas, que devem
ser usadas
com cautela, com a colaboração de um competente neurofisiologista. Em particular, artefatos ou patologias sobrepostas podem complicar a sua interpretação.
EEG
contínuo na UTI é a única maneira de documentar
a incidência surpreendentemente elevada de crises não-convulsivas, convulsões
e estado de mal convulsivo ocorrendo em
pacientes de UTI, independentemente da sua etiologia.
A
ENMG pode ser exigida na UTI em diversas categorias de pacientes:
- em pacientes recém-admitidos, sempre que houver
qualquer suspeita de Guillain-Barré, polirradiculite ou uma neuropatia
pré-existente. Incluem-se aqui também crises tireotóxicas ou crise
miastênica e também botulismo;
- em pacientes com fraqueza de vários dias ou semanas
após a admissão, para o diagnóstico diferencial entre
miopatia e / ou neuropatia;
- doenças neuromusculares devidas a bloqueio
neuromuscular;
- em pacientes com dificuldades para a fase de
desmame do respirador;
- em pacientes com politraumatismo, incluindo o raqui-medular;
-trauma de membros inferiores e possíveis lesões
do nervo periférico;
-neurapraxia secundária a procedimentos cirúrgicos ou outras causas de
compressão e tração dos plexos nervosos;
O monitoramento é irrealista, se a
sua interpretação puder ser feita apenas pelo neurofisiologista clínico. Softwares de análise de dados podem ajudar a
interpretação de indicações clínicas específicas em um futuro
próximo, mas só depois de uma fase de validação com muito cuidado e critério.
As sociedades científicas devem se esforçar para
convencer os legisladores a adaptar as suas normas em conformidade com os
crescentes avanços da neurofisiologia clínica e seu papel cada vez mais
abrangente no ambiente das unidades de terapia intensiva.
Maciel Eduardo de Pontes
Joaquim P. Brasil-Neto
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Academia Brasileira de Neurologia-São Paulo, Brasil